Toda vez que vou a Buenos Aires, acabo fazendo uma viagem peculiar – e cada vez por um motivo. Eu estava felicíssima de ter sido convidada pelo Paulo (meu amigo de muitos e muitos anos) para seu casamento na cidade. Recolhi uma série de endereços de chás para tomar Chamana, Inti.zen, Tea Connection, Tealosophy e nenhum dos planos deu muito certo – exceto por Tealosophy (aguardem um post especial sobre a loja). Achei que ia passar horas cruzando Palermo de ponta a ponta, matar as saudades de Palermo Viejo… e nada! Fiquei pulando de galho em galho, de amigo em amigo, charlando, tomando chá, celebrando os encontros. Ou seja, uma verdadeira cerimônia que durou quatro dias!

Juan (o da direita, por favor, o outro eu não faço a mínima ideia de quem seja) foi meu anjo da guarda. Além de ter me hospedado, ele foi comigo fotografar a loja de Inés Berton em Palermo. A Tealosophy fica em um espaço com carinha de Provence (com direito a jasmins no chão), a Galeria Paul. Fazia tempo que eu não via Juan – desde a minha última viagem a Buenos Aires, em 2004 – e fazia tempo também que não nos falávamos. Retomamos contato recentemente para falar do blog Cerimônia do Chá. Juan foi um dos amigos fundamentais para fazer o blog renascer.

Depois de eu quase surtar na Tealosophy, segui a pé até o Ilum Experience Home, onde estavam hospedados os noivos (Paulo y Paula). Como eu sempre passava lá para dar um “oi” e essas passadinhas nunca duravam pouco tempo, acredito que tenha sido o salão onde mais passei tempo tomando chá, sempre da marca José, mate ou de rosa mosqueta. A trouxinha que armazena a erva é linda, mas me deixa um pouco aflita imaginar que elas não tem para onde se expandir, ficam todas apertadinhas lá dentro.

Ainda na minha lista de queridos amigos, pude rever mi “mama argentina”, a Titi, mãe do Andy, duas pessoas queridas que muito me influenciaram no hábito de tomar chá.

Titi até me emprestou um livro, passamos horas falando de nossas paixões, descobertas, fases de vida… Tentamos encontrar alguns chás de Tealosophy na sorveteria Volta – mas o endereço da Santa Fé, infelizmente, não tem chás desta marca. No entanto, nos compensou com um jardim agradável!

Outros grandes momentos de conversa e aconchego foram compartilhados com meus anfitriões, Juan y Patricia, sua namorada, que eu acabo de conhecer, mas era como se estivesse na minha vida há alguns anos. Patricia carinhosamente preparava o café da manhã (e Juan o jantar) e sentávamos juntos para passar bons momentos. O que eu mais gostava era da hora do mate, é claro, afinal, estava em Buenos Aires.

Manhãs de frio e sol, com a chaleirinha da casa e o mate misturado com um pouco de açúcar e casca de laranja.

ichigo ichie

E, além de colocar meu blog no ar, em pé, Juan ainda me envia o seguinte e-mail depois da minha volta:

ASSUNTO: encontrei isso e lembrei de você

a cuarta característica da arte zen

Naturalidad (Shizen)

Ausencia de fingimiento o artificio. Lo que significa en este contexto no es lo mismo que “naturaleza en estado bruto”. Es “no irrazonabilidad”, “no idea”, “no intensión”. Esta naturalidad no puede ser prevista. En el rito del té se dice: “Es bueno que las cosas sean sabi, pero hacer sabi las cosas no es bueno, pues es forzado y artificial”. Aquello que alguien vuelve natural es innatural. La naturalidad debe involucrar una plena intensión creativa y, al mismo tiempo, debe ser inartística y no forzada.

Extractos del libro Zen y Arte, publicado en Japón en 1958, por el caligrafo pintor Sinyu Morita.

Apesar da longa “ausência bloggística” nos últimos dias (os motivos foram muitos e vão desde excesso de trabalho, passando por imprevistos em diversos setores e conexão instável, muito instável), o blog não saiu da minha cabeça e nem o chá deixou de me acompanhar, mesmo que preparado com aquela água quente gratuita das máquinas de café.

Algumas frases, pensamentos e pessoas permearam estes momentos e tudo o que eu posso deixar registrado aqui são as ressonâncias de momentos agradáveis – inclusive profissionais, que têm sido gratificantes, por instantes poéticos.

A frase do Saramago resulta dessas trocas.

Na ausência, nas reminiscências, na saudade, nos reencontros e encontros casuais, muita gente passou pela minha vida…

 

SOLANGE – ISA – SOFIA – RICARDO

As passagens do Ricardo por São Paulo não passam imunes à troca de sacolas com presentes, bobagens, lembrancinhas. Meus presentinhos desta vez foram dois tsuru, a pedido da Isa que começa a se interessar por origami e me faz pensar em minha infância (o legal é que desta vez consegui encontrar com meu cunhado e deixar mais duas bobagens da cor dos papéis dos origamis para entregar para as meninas). Mas foi a Solange que caprichou mais desta vez, mandando alguns saquinhos de chás especiais…

 

CHAZINHO PÓS-YOGA

Nada, nada melhor que o momento pós-yoga às sextas-feiras para degustar o chazinho enviado pela Solange. Confesso que ando simpatizando com a mistura de chá preto com chá verde (esta, da Hawaiian Natural Tea, com maracujá e laranja, é especialmente bem tropical e vem em uma caixa muito prática, com 8 sachês, ideal para viagens). A mistura  “verde + preto” ainda não entrou para a minha top list (não sei se são as aulas da Urasenke, mas o matchá está sendo muito, mas muito apreciado), mas vamos dizer que ela tem servido bem os momentos em que fico na dúvida de qual chá tomar…  Por mais estranho, contraditório ou “impuro” que possa parecer, eu recomendo a mistura. Carline pode estrear sua caneca linda – e funcional – comprada na sua visita à Teakettle.

 

ENCONTROS NA GOURMET TEA

Eu tinha combinado com a Michiko – como de fato nos encontramos, depois de meses e acontecimentos e e-mails trocados -, mas fomos surpreendidas com a chegada da Teresa Bettinardi (encontro casual), que tinha marcado almoço na lounge store com Lúcia com Alice, que chegaram logo depois.

Quando vi Alice pela última vez, ela mal andava e agora ela já reconhece as  cores com apenas 1 ano e 8 meses – imagina a pequena na loja-pantone… Eu e Michiko estávamos de saída (ainda tinha no roteiro uma passadinha pela Japonique para encontrar com a Lili e dar um beijo na Rachel Hoshino e na Jane Aki, que se juntaram à loja para arrecadar fundos para o movimento “Todos Juntos pelo Japão“), mas ficamos para mais um chazinho depois do almoço. Michiko foi de pérolas de chá verde com menta marroquina (o aroma do Green Moroccan Mint é delicioso) e eu, na minha meta de experimentar um chá diferente cada vez que passo pela Gourmet Tea, escolhi um rooibos cítrico com gengibre, o Rooibos Citrus Ginger (noto que o gengibre tem sido uma constante nas minhas escolhas).

A Rita Rita Taraborell, chef que criou o cardápio da casa, também estava por lá!

 

CANTO URBANO

Em dois meses circulando por um lugar que concentra grandes prédios comerciais, encontrei uma viela, aquela do boteco, dos motoqueiros, que tem mesas de madeira e espaço para minhas letras e pensamentos. É lá, ouvindo Keith Jarrett e Erik Satie no talo (às vezes, são as meninas – Keren Ann, Andrea Perdue,  Au Revoir Simone e Dalida) que tenho meus pensamentos matutinos, uma xícara de expresso (pardon, pardon), meus pequenos pedaços de papel em branco e anotações soltas…

Parece que me encontro com o Puri todas as manhãs:

* Será que o som do sino deixa de existir ou nós é quem deixamos de escutá-lo?

* Quando uma fruta deixar de ser viva? (antiga, do Colar de Cerejas, que ressoa)

* Pó do chá no ar perfuma os meus sábados (reminiscência)

 

A semana foi de trabalho intenso. Intenso e inspirador. A cada dia que acordo, agradeço estar em contato com situações que me fazem crescer a cada dia, com as oportunidades de reflexão criativa, com encontros e situações que valem muito mais do que um rótulo de “reunião de trabalho”: propiciam uma vivência que me fazem voltar para casa com motivação infinita.

Uma das reuniões que aconteceram na semana foi em Cajamar, na Natura, percorrrendo corredores transparentes bem estar bem (mais tátil do que isso impossível) que me levam muito mais do que de um prédio para outro, mas me aproximam da experiências de vida de  1 milhão de consultoras, mulheres e brasileiras, na busca constante de cuidado, bem-estar e transformação – delas, da família, e de sua comunidade.

Quis levar o clima para o dia seguinte, de agenda lotada. A brincadeira foi “um chá por reunião” (duas foram canceladas, ufa, mas dei um jeito de tomar os 4 sachês que carregava na bolsa e não foi nenhum sacrifício).  Foi uma ótima desculpa para fazer o test drive da linha de chás orgânico frutífera, da Natura, que já andava aqui na fila .

Apesar de termos apenas 4 sachês na foto (e meu querido amigo João Felipe Scarpelini – inspirador é pouco para defini-lo), a frutífera tem 5 blends, que são denominados goles de leveza (chás verde e branco), sossego (infusões a base de melissa) e pureza (para o digestivo “carqueja, funcho e hortelã”, muito amargo, não gostei!).

 

Minhas recomendações:

* chá verde cítrico:  é o melhor chá verde de saquinho nacional que já provei (o cítrico ajuda)

* chá de melissa com rosa mosqueta e canela:  a canela dá um charme sem matar o gosto do resto, combina com a tardezinha

* chá branco com cravo: foi o que mais surpreendeu, até porque eu estava com muito pé atrás com o cravo (morrendo de medo de que o chá poderia virar quentão) e o chá branco (tenho dificuldade tomá-lo puro). Ele desbancou o chá verde cítrico e virou o meu preferido da linha, não só o meu quanto das pessoas a quem já o ofereci.

Além disso, ele é o que tem a embalagem mais fofa, com flocos de neve (na minha viagem a sutileza do branco sobre branco é sinônimo de neve), e uma caixa vertical muito prática (veja no site), que tem um picote especial para você ir retirando os saquinhos um a um sem a necessidade de ficar abrindo a caixa. O preço está acima dos chás de supermercado (R$ 15,00), mas a qualidade também é superior!

oriental feelings

13/03/2011

Sexta-feira costuma ser meu day off. É o dia da semana em que eu costumo fazer “minhas coisas”: yoga, chá demorado com Carline, almoço com alguém querido, chá da tarde, reuniões de projetos bacanas, realização de projetos bacanas, às vezes uma reunião ou outra de trabalho (quando possível, tento passar as mais legais para sexta), cinema, livinho, bate-papo etc. Raramente “não faço nada”. E o “não fazer nada” é relativo, é bem relativo (assim como a expressão day off, porque eu sexta é muitas vezes o meu “day mais inn” da semana).

Trabalhei na última sexta até duas da tarde, ritmo meio non stop. Sabia que a Flavia chegaria à Talchá antes de mim, então deixei a recomendação para ela pegar uma das mesinhas do lado de fora, beeeem agradável porque almoçar depois do horário vale a pena quando 1) a reunião que atrasou é muito boa (e foi o caso) e 2) quando o lugar escolhido e a comida me transportam para outro mundo (então, no lugar de uma praça de alimentação cheia de adolescentes em plena sexta-feira, achei que poderia optar pela mesinha externa da Talchá, saladinha Arroz de Festa e, finalmente, o chá Bossa Nova!).

Fazia meses que eu estava devendo uma visita Talchá para experimentar o Bossa Nova, chá verde que é produzido no Brasil para exportação e que não chega(va) nas nossas prateleiras. Para quem gosta de chá verde com unami forte, é uma boa pedida. Esse é o único chá da loja que não fica armazenado dentro da lata, mas se encontra na geladeira para que seu sabor e frescor sejam mais bem conservados = essa dica já tinha sido passada para mim pela Miki, que me convidou para a cerimônia do senchá. Ainda não fiz isso em casa porque ainda não inaugurei nenhum pacote novo de chá verde. Deixem o próximo chegar…

Com uns pingos de garoa, transportamos nosso almoço-chá-reunião legal para o lado de dentro da loja e, tão logo entrei, já bati o olho nos lustres que ficam sobre a mesona dentro da loja e, mais uma vez, enxerguei o chasen, batedor de bambu, de ponta-cabeça (a foto está invertida para que você possa visualizar o mesmo sem ficar entortando a cabeça ou o notebook).

Depois da reunião, mais diversão garantida ao nosso MUNDO FLUTUANTE com a chegada do Marcelo, amigo da Flavia. A conversa passeou por meditação, vida, amor, família, encontros, livros, Jack Kerouac (“vagabundo do darma”), técnicas, histórias e mais histórias. Os chás que chegaram em bules diferentes (!) foram servidos trocados e pediram todo um movimento interativo com os aromas nas xícaras que passearam pela mesa.

Marcelo escolheu o Pera Fujian (chá branco chinês com pedaços e aroma natural de pera), que eu adoro. Flavia optou por uma infusão quente-fresca, o Frescor de Capim Limão (pedaços de maçã, gengibre, flor de hibisco, casca de laranja, capim limão, raiz de alcaçuz e ginseng, cártamo, beterraba, menta e alecrim) e eu me joguei no chá mate mesmo, o Mate Gengibre Citrus Orgânico (erva-mate, capim-limão, gengibre, limão-taiti e aromas naturais – ou seja, uma variação cafeinada da bebida da Flavia). Gostei médio desse meu chá, me arrependi de não ter testado com açúcar (talvez seja uma conexão com a minha pré-adolescência, em que as tardes frias, principalmente a de 1988, quando minha tia faleceu e minhas primas ficaram em casa, tinham sempre uma mesa de lanche da tarde com mate docinho preparado pela minha mãe).

Ficaríamos fácil mais um tempo conversando por lá se a loja não estivesse fechando (de repente, ouvimos as badaladas das dez da noite) e seguimos adiante. Flavia me deixou uma carta e Marcelo, uns pacotinhos de chá que ele tomava com os amigos no Plum Village da Califórnia.

Foi com essas memórias que eu acordei antes de seguir para a minha primeira aula de cerimônia do chá de verdade con Sensei Hayashi e Bertha Nakao, da escola Urasenke no Centro de Estudos Japoneses da USP.

Passei a tarde da última sexta-feira na lounge store da Gourmet Tea, que acaba de abrir para o público. E não queria mais sair de lá. Ficava fazendo as contas de quantas vezes eu teria que voltar (ô, sacrifício….) para degustar os 35 blends de chás orgânicos – tudo bem que eu já devo ter experimentando mais ou menos uns 6 deles e que posso fazê-lo em outros cafés e restaurantes de São Paulo que adoro, mas eu quero fazer tudo isso lá e você vai bem entender o porquê.

O convite “permita-se, deixe-se levar pelos aromas, cores e sabores desta aventura” que eu lia todas as vezes que entrava no site da Gourmet Tea se materializou no melhor sentido da palavra. Na entrada, uma pequena estante com os acessórios vendidos pelo site. Sem cara de vitrine, sem ser impositiva. Apenas algo a sua disposição se você quiser levar um pouco das suas descobertas para casa (os chás também estão a venda). Foi lá mesmo que Daniel Neuman, um dos criadores da Gourmet Tea, se aproximou delicadamente, sem aquela intimidação dos vendedores (a proposta nem é essa), já trazendo um pouco do seu silêncio e hospitalidade e abriu as portas para minha experiência. E não há outra palavra que defina melhor o que se passa a seguir: um lindo “balcão-pantone” traz latas e mais latas enfileiradas, a disposição do cliente. Tudo muito à vontade. Você olha, pega, lê, abre… e cheira. Os blends estão todos lá acessíveis, prontos para virarem seus melhores amigos. O balcão segue atravessando a loja até o fundo. E aquelas misturas lindas, cheirosas e coloridas vão se transformando em sabores, quitutes de chás da chef Rita Taraborelli (ela é responsável pelo cardápio da loja, que também oferece almoço) e, é claro, em chás.

Só esta pequena caminhada já é muito divertida, ainda mais se você der sorte, o local não estiver cheio e você engatar uma conversa com o Daniel ou qualquer um dos atendentes. Pela cor, pela beleza da mistura de elementos dos chás ou pelos cheiros, eu já ia elencando algumas latinhas que tinham o potencial de entrar para o meu top 5.

Mas o melhor ainda está por vir…

A cerimônia começa quando você senta.

Sem hesitar, eu escolhi o Five Elements, que tem base de oolong (um típico chinês, que em termos de oxidação, fica entre o verde e o preto) misturado a ginseng, raiz de alcaçuz, frutos de shizandra e flores de osmanto.

A conversa continua, eu já um pouco mais calma tentando digerir tudo o que tinha visto até então, mais suavizada da caminhada com o sol a pino na rua. A agitação foi baixando aos poucos e eu achei que estava pronta de verdade para encarar o chá, quando fui surpreendida pelo kit que se colocava à minha frente: suporte de madeira comcopo, infusor, pires com o chá, colherzinha, um quitute e……………….um timer!

Como bom anfitrião, Daniel perguntou se eu gostaria que ele preparasse o meu chá. Se fosse um ambiente tradicional, eu seria uma péssima convidada. Mas como a ambiance do lounge store te dá toda a liberdade do mundo, eu espontaneamente neguei a proposta. Como poderia perder a oportunidade de interagir com tudo aquilo (e eu já estava muito interessada em operar o tea maker, infusor sonho de consumo, tanto pela sua “magia” quanto pela sua praticidade – acho que as duas características estão indissociadas no objeto em questão), poder fazer o meu próprio chá fora de casa?!

Cada um preparou o seu próprio chá, um ritual absolutamente acessível e contemporâneo.

Mas o silêncio só chegou no momento em que levei o chá à boca: o equilíbrio que você degusta está na essência dele  – posso garantir isso pela conversa de bastidores sobre como o blend foi concebido, mas não estou aqui para revelar segredos…

Retomando o post: o que me deixou mais feliz nesta visita, além de conhecer o local e explorar sinestesicamente seus cantinhos, foi conhecer o Daniel Neuman e o Leandro Toledano, os dois nomes por trás da Gourmet Tea. Depois do Five Elements, bati um longo papo com o Leandro também e pude descobrir que no DNA da Gourmet Tea há uma parceria de alma, uma história de dois amigos de infância que reuniram amizade, experiências de viagens e paixão pelos chás, depositaram tudo isso em misturas de sabores que foram nascendo e se armazenaram em lindas latas coloridas.Isso extrapola para os produtos e para o ambiente – não dá vontade de deixar o lugar. Parecia aquelas situações na minha infância quando eu visitava a casa de amigas que tiravam todos os seus brinquedos do armário para a gente brincar. E me lembrei também da Inés Berton contando que o chá dava a ela a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas.

Como se não bastasse, ainda encontrei por acaso um amigo de longa data, o Kimura, andarilho da cidade como eu (e anjo da guarda dos macs – mas isso é só um pretexto para as conversas e os cafezinhos e encontros nos estúdios de amigos). Pulei para outra mesa com ele e Rita, a chef que criou o muffin de chá branco: muito, mas muito recomendado. Eu já estava com meu horário estourando, mas não consegui sair de lá sem pedir mais um chá.

THE GOURMET TEA: rua Mateus Grou, 89, Pinheiros, tel. (11) 2936-4814, aberto todos os dias, das 10h às 19h.

Apesar de já ter lavado algumas cuias e bombas na minha vida (todo mundo que já conviveu ou namorou com gaúchos sabe bem do que estou falando), eu nunca fui chegada em chimarrão. Sempre achei o mate de um amargor danado. Mas, na sexta-feira, ele entrou para a minha vida de uma maneira quase espontânea depois da aula de yoga – e apresentado por uma… catarinense, a Carline (vejam o post sobre nossa cerimônia no blog dela – você vai notar que muitas fotos são repetidas mesmo; elas foram feitas – com qualidade – pela Carline, já que as minhas, de celular, não deram muito conta do recado). Eu gostei da experiência.

Além de aprender a saborear (acho que a “abertura do paladar” para mais sabores de chás me ajudou na apreciação), descobri várias coisas sobre o preparo do chimarrão, que é um lindo ritual. A primeira delas é que é preciso purificar a cuia, jogando água fervente dentro dela e deixando por alguns instantes (uns dois minutos). Depois de jogar a água fora, tem quem coloque um pouco de água fria dentro da cuia para baixar sua temperatura – assim, a erva-mate (para quem quiser pesquisar mais, o nome científico da planta é llex paraguariensis) não fica queimada, o que pode alterar seu sabor. Há toda uma maneira de depositar a erva dentro da cuia, que permanece levemente inclinada para que a montinho de ervas fique na diagonal – como aparece ilustrado na embalagem do “Chimarrão dos Pampas”, da marca Leão:

Só então podemos acomodar a bomba, que dá uma segurada na diagonal (eu adorei esta parte, embora não testei ainda se consigo deixar tudo equilibrado assim). Antes que me perguntem, a quantidade de erva colocada depende do tamanho da cuia… desde que se mantenha a diagonal!!!

Bom, depois de toda essa preparação (que ainda inclui uma térmica com água a 75 graus), a parte 2 do ritual é iniciada pelo anfitrião/dono da cuia  (‘anfitrião” é bem modo de dizer mesmo, uma vez que o chimarrão não é necessariamente tomado sempre dentro da casa de alguém, pode acontecer em locais públicos, como na praia por exemplo – podemos pensar no uso da palavra “anfitrião” remetendo ao ato de proporcionar à experiência ao grupo). O anfitrião – no caso, a Carline, coloca a água no espaço que está vazio da cuia até que ela fique toda preenchida com água quente. Uma pessoa viciada em cerimônia do chá japonesa poderia achar que isso é uma certa falta de educação. Béeeeeee – julgamento errado. Carline me explicou que isso acontece para testar se a temperatura da água está boa. Como não foi o caso neste dia, abrimos um pouco a térmica para deixar a água esfriar, Carline tomou seu chimarrão pelando e, assim que terminou, completou novamente a cuia com água quente e a ofereceu para mim. Fiquei com os lábios levemente adormecidos, mas não queimados, afinal, a bomba é de metal. Depois, a água foi esfriando e eu já estava conseguindo curtir a bebedeira.

Achei bem legal o aprendizado do “ouvir” enquanto se bebe o chimarrão. A fala da Carline explica:

Sendo a cuia comunitária, é um verdadeiro ritual de servir e ser servido, de falar e ouvir. Enquanto uma degusta a bebida quentinha, a outra pessoa partilha os sentimentos.

Outro ponto que gostei muito: a pessoa que acabou de beber (pode, sim, fazer barulho quando se chupa pela bomba e a água está acabando) pergunta para a seguinte se ela quer continuar a roda. Se a resposta for positiva, ela preenche a cuia com mais água e a oferece ao próximo com a bomba na direção certa para que ele tome o chimarrão… E assim se segue até o final da água (e reposição), do frio, do papo.

Mais fotos (da Carline, granulada pelo meu celular). Prestem atenção na última foto: quandocheguei ao finalzinho da minha primeira rodada, bebi um pouco de erva que subiu pela bomba. Recorremos ao filtro de bomba, uma delicadeza…

Aos poucos, vou equalizando conexão-rotina-posts (por isso o sumiço deste fevereiro). Acho que terei um treco se eu não voltar em breve com a minha “rotina chazística”. Não no sentido de cobrança, mas na conexão com a essência mesmo.

Seguem algumas breves do que aconteceu neste interlúdio…

 

“Momento Alice”


As fotos são da Flavia Sakai em um domingo de sol delicioso, pós-experimentação gustativa no Cosi (a Lu Tokita é sempre EXCELENTE companhia para programas gastronômicos e o restaurante da Vila Nova Conceição tem um telhado/varanda deslumbrante – só não passe por lá em dias muito quentes, deve ser perfeito para o outono mesmo). Saindo de lá, corremos em meio a garoa fina para a  Cristallo bem de frente para a pracinha (Pça. Pereira Coutinho, 182). O mais delicioso, além dos docinhos, foi encontrar chás da Gourmet Tea – eu, que sempre repito as escolhas, desta vez tomei o revitalizante (rooibos, canela, gengibre e cardamomo), da linha ayurvédica. Foi divertido brincar de Alice e bulinho com as amigas.

 

“Cerimônia Senchá”


Receber um convite em mãos, com seu nome escrito à máquinha (um por um, pelo pai da Miki), é uma honra. Se o convite é para uma cerimônia do chá então…  O evento foi promovido pela Associação Tooraku-kai do Brasil (Sencha-Seifuryu) e, além de encontrar amigos queridíssimos – Rose e Pedro, Jane Aki, Sônia, Anne e Miki, que nos convidou – pude rever Okamoto Sensei e Noriko-San, que estiveram nos bastidores deste domingo em que, por algumas horas, esquecemos do calorão de São Paulo. Depois de sermos introduzidos ao chá de sakurá (uma aguinha morna com gosto de umê), partimos para 3 tipos de chá verde, acompanhados de wagashi artesanais, encomendados especialmente para a cerimônia!

A terceira “rodada” da cerimônia foi refresco puro. Além do doce gelatinoso e transparente, recebemos uma xícara de gyokuro gelado, preparado em utensílios de vidro. A transparência nos levou longe do asfalto queimando lá fora.

Depois dessas imagens, penso seriamente em buscar um pouco de água na geladeira…