A duração da conversa não passou de 2 fitas (60 minutos/cada) – aliás, usamos apenas no começo da segunda fita – e tinha momentos em que parecia que a conversa nem tinha começado. Em outros, parecia que eu estava falando depois de muitas horas. Foi assim que eu e Claire nos encontramos ontem no final da tarde (pré-chuvarada) no jardim de pedras no fundo da Japonique. A conversa já tinha conversado no dia anterior, no domingo, no meio de sorvetes e café, quando lhe contei sobre a performance da cerimônia do chá que fiz em 2008.

Claire está fazendo um documentário sobre arte e identidade nipo-brasileira, entrevistando pessoas no Brasil e no Japão.  Por isso conversamos em meio a câmera, fitas, fones e microfone. É impensável falar da minha relação com o Japão é com a cultura japonesa, sem falar de Paris (cidade onde Claire nasceu e mora), até hoje minha principal plataforma de acesso ao Japão. Foi de lá que embarquei para Tóquio, onde conheci mulheres japonesas, pude ter acesso a livros que falavam sobre comportamento e aspectos sociais do país e que tive meu primeiro clique com chás. Da mesma maneira, é impensável falar da minha busca pelo Japão sem tocar no nome da Flavia Yumi Sakai, minha irmã de descobertas.

Por isso, a cerimônia do chá desta manhã, mesmo que solitária, só poderia evocar a presença da Flavia e da Claire. Coincidência ou não, a lista das estreias de 2011 tinha apenas dois itens, dois presentes: um bule de cerâmica que ganhei da Flavia no final do ano passado (depois de um encontro com amigas que aconteceu no ateliê de cerâmica da Jane Heinrich – aliás, o lindo bule tomou forma em suas mãos) e uma lata de Mariage Frères (MINHA PRIMEIRA LATA PRETA!!!) com o chá preferido da Claire, que chegou pela sua mãe em São Paulo e virou presente no final da entrevista.

Apesar de já ter falado (e muito) dos chás da Mariage Frères, é a primeira vez que eu tenho acesso a uma latinha preta minha, do início ao fim (merci, Claire). Eles sempre chegaram embalados em sacos, pois é muito mais fácil de transportar na mala. Eu nunca tinha pensado no desejo de possuir a latinha preta, mas tão logo desembrulhei o pacote, eu delirei.  Abri a lata correndo para sentir o aroma, mas ela estava lacrada. Consegui me controlar, pois percebi que a tampa da lata não a veda suficientemente bem para ela ser aberta e guardada dentro da bolsa sem que o chá se espalhe todo.

Hoje pela manhã, eu mal levantei a argola do lacre e já sentia o perfume do chá preferido de Claire.

O Thé à L’Opéra é um chá verde aromatizado com frutas vermelhas e baunilha.

Corri para colocar a água para ferver, feliz em saber que a água aquece muito rápido no fogão da minha mãe.

Então fui desbravar o bule da Jane H. Eu tinha namorado muito esse bulinho que estava discreto em uma das estantes do ateliê.  A Flávia o sequestrou escondido para a embalagem de presente. Tudo isso e eu nem o conhecia por dentro…

Água fervida, desliguei o fogo e terminei um chat com a Lu Sato, para dar um tempo para a água esfriar. Como meu termômetro está encaixotado em algum lugar, foi pelo dedo que senti a temperatura branda (chuto por volta de 70 graus). Como estava sem termômetro e sem peneira, dispensei também o medidor. Salpiquei um pouco do chá dentro do bule. E  me dei a licença poética de deixar algumas folhas caírem…

O chá é delicioso, bastante perfumado, com a baunilha quase imperceptível (vou tentar fazer mais forte para ver se sinto mais) e um sabor bastante acentuado de frutas vermelhas. Me lembrou um pouco o chá da Monalisa, mas o Thé à L’Opéra é mais forte, de sabor marcado, com cara de inverno. Tô torcendo para dar chuva com vento no final da tarde (mais vento do que chuva) para repetir a dose.

A “mulher da foto” está de costas, mas aposto com todo mundo que, se tivesse de frente para a câmera, teria um grande sorriso no rosto ou uma cara de louca mesmo tipo “entrei no paraíso”. Melhor, aposto que ela estava com sorriso e cara de louca ao mesmo tempo. A “mulher da foto” é a designer Tereza Bettinardi, que está passando uma temporada em Berlim e viajando  por aquelas bandas. Nos conhecemos no início do ano fazendo infográficos (alguns deles estão aqui) para o projeto institucional da Abril Planeta no Parque. Tivemos uns dias insanos de trabalho e o que mais me chamava atenção era a Tereza chegando com sua sacolinha de biscoitos dinamarqueses e chás Twinings. E aquilo nos conferia uma certa dignidade nas noites viradas.

Sem fazer nenhum esforço, a gente se transformou em “comadre de xícara” no facebook e no twitter. Outro dia, ela me enviou essas fotos do London’s Strand, o endereço da Twinings em Londres em que você pode entrar, ficar chocada com a variedade de chás nas prateleiras, fazer o seu chazinho para experimentar e também comprar. Bom, sem muita discussão, né.

Ela me passou também o link seu novo vício, o Blossom Earl Grey (edição limitada), da Twinings. Fiquei curiosíssima (espero que ela volte com alguns saquinhos na mala) dessa mistura de chá preto com bergamota (o clássico earl grey) e flor de laranjeira. A edição é limitada, mas, se você tiver passando por Londres, não custa tentar (visitar o museu e a loja então nem se fala). Eu já fiquei encantada só com a embalagem!

Aproveito o finalzinho do post para deixar outro link-dica da Tereza: o infusor Tee-Ei, da Ad-Hoc design shop. Lindo e prático, ele faz a graça de boiar na bebida.

LONDON’S STRAND: 216 Strand, London, WC2R 1AP, aberto de segunda a sexta, de 9h às 17h, e aos sábados, de 10 às 16h.

Passagem rápida pelo blog só para contar que o Cerimônia do Chá foi convidado para testar uma marca importada que corre o sério risco de ser comercializada em São Paulo (sem previsão de data). Recebi amostras em saquinho de 5 variedades de chá verde aromatizado, misturas interessantes que estão sendo degustadas aos poucos. Aproveitei para estrear uma das xícaras japonesas que vieram no carregamento da última visita à casa dos meus pais (as peças mais “valiosas”, como um bulinho simples que era da minha baachan ou presentes de casamento da minha mãe ainda não são dignas do meu armário).

Passear pela vizinhança é bom. Principalmente quando a vizinhança é amiga. Entrar em uma loja, compartilhar descobertas e criações, conhecer lugares novos, pessoas novas, percorrer prateleiras de uma livraria que faz tão parte da minha história, onde me perco, me encontro e me deparo com pedaços de outros passeios que aconteceram anos atrás.

Ao abrir um livro fui, por alguns instantes, transportada a Berlim, cidade onde passei uns 4 dias com o Puri fazendo coisas banais. Ainda trago na pele a sensação dos ar preenchendo completamente meus pulmões em caminhadas por avenidas amplas e passar longos períodos deitada na calçada de um café que não existe mais e em cujo banheiro havia um exemplar em inglês do Tao Te King. Poderia reconhecer o cheiro das máquinas de escrever nos brechós, dos tipos em metal expostos em uma barraca no mercado das pulgas e sentir novamente meus olhos lacrimejarem no Museu Bauhaus, onde andei por corredores do passado e do futuro.

E assim meus olhos ficaram ontem ao abrir um livro e me deparar com o bule mais lindo do mundo (que faz parte do jogo de chá mais lindo do mundo). Os nomes oficiais são Tac Tea Pot e Tac Tea Service, respectivamente, criados por Walter Gropius, arquiteto e fundador da escola Bauhaus, para o Rosenthal Studio em 1969.

Alguns acham esta estética fria, simétrica ou até técnica demais (função, forma, cor, material e processo produtivo são elementos importantes na elaboração do design). Simples e harmônico, acho que Bauhaus é um reflexo de um pensamento de Gropius, que via o design como parte integral da vida. Outro ponto interessante a comentar aqui: a influência do design japonês.

Eu me entrego a Bauhaus. É uma escola que me toca profundamente. Em algumas peças, eu sinto que a ausência de referências ou de coisas, esse vazio, me permitisse preencher tudo isso com minhas memórias sensoriais. Nada de retratos de família pendurados na parede contando uma história. Posso construir a memória de maneira mais sutil, praticamente invisível, intocável.

E ainda nem cheguei no aspecto “conforto”. Eu acho que ele vai além da proposta de “praticidade”. Basta olhar para a alça da xícara da foto acima ou para a tampa do bule na primeira foto do post. Como seus dedos se encaixariam ou segurariam os utensílios? A minha resposta seria: “de maneira confortável”. E isso é uma característica dos bules Bauhaus: “interessantes e agradáveis de segurar”, sem falar de outras vantagens, como conservar a temperatura e evitar que a bebida escorra pelo bico ao terminar de servir uma xícara.

Todos esses princípios já estavam lá no jogo de chá assinado por Whilhem Wagenfeld (que foi aluno e depois professor da Bauhaus) em 1931. O famoso bule de vidro, criado então para Jenaer Glaswerk Schott & Gen, é sonho de consumo atemporal.

Eu ainda fico com o modelo de Gropius. E você?

Há um mês, desde que tive que passar uma temporada fora de casa, passei a carregar uma caixinha com chás e a famosa peneira japonesa na bolsa para não ficar na mão.

Como passo muito tempo em casa (trabalho no esquema home office), gosto muito de visitar meus amigos e achei que seria digno ter um kitzinho para preparar chá na casa de outras pessoas. O que é muito útil, pois eu sempre ganho algum chá de presente, que entra para o kit (nenhum saquinho merece ficar jogado amassado dentro da bolsa).

Decidi batizar o kit-cerimônia-delivery de Kikks’ Delivery Service, em homenagem a uma animação linda do Studio Ghibli: Kiki’s Delivery Service. Eu sou apaixonada pelas heroínas independentes de Miyazaki: Kiki é uma bruxa que sai de casa aos 13 anos e seu ritual de passagem para a vida independente consiste em partir para uma cidade desconhecida onde ela vai morar e exercer os seus poderes mágicos. Ela descobre seu dom: usar a vassoura voadora para fazer entregas pela cidade.

Façam seus pedidos…

foto cortesia da Cássia Hosni, com quem degustei meu primeiro Marco Polo (Mariage Frères), versão saquinho, e que me ajuda a fabricar as xícaras dos meus sonhos

Três dos quatro blends da Gourmet Tea que eu tomei foi junto com a Carline Piva (professora de yoga e companheira de degustações de chá “chuchuzinha“). Reservamos as manhãs de quinta para a nossa descerimoniosas cerimônias do chá e hoje foi ainda mais especial. Na terça-feira, ela comemorou seu aniversário no Pão, uma padaria artesanal orgânica pequena, fofa e deliciosa nos Jardins (que só trabalha com chás orgânicos da Gourmet Tea – eu provei a infusão herbal Soothing da linha dos ayurvédicos: uma mistura de camomila, raiz de alcaçuz, semente de funcho, cardamomo e gengibre… e adorei). Lotamos o estabelecimento, que tem três mesinhas aconchegantes. Posso dizer que o calor humano foi fundamental para uma tarde fria de primavera depois do cineminha…

O aniversário passou e ficaram os presentes (bule, chá e a peneirinha japonesa, esta última parte do kit-mimo, que foi o meu presente) e com eles, a Carline preparou este chá de feliz desaniversário 😉

O chá presentado foi o White Passion, da linha de chá branco, que tem raiz de alcaçuz (mordo a língua de novo), grãos de cártamo, centáureo (duas flores lindas, coloridas e com um aroma que quebra a coisa sem graça do chá branco) e aromas naturais (não sei do quê, provavelmente das flores, apenas reproduzo o que estava escrito no rótulo). A dica da Val, amiga da Carline que ofereceu o presente: tomar o chá com cookies integrais de banana.

E assim começamos muito bem nossa quinta-feira.

Cabe aqui um importante comentário: eu estou adorando os chás da Gourmet Tea. Vou comentando os blends conforme eles cruzam meu caminho (coincidentemente, via Carline, que ganhou alguns de presente de amigos). Vale muito a pena experimentar: trata-se da marca nacional que atualmente reúne  produtos de qualidade, ingredientes orgânicos, uma grande variedade de blends com sabor surpreendente (para o bem, pelo menos os que eu já pude provar). O preço não é super acessível (uma lata com 45g custa R$ 23,90 no site da marca, sem contar o frete – custa quase 3 vezes mais que o peso equivalente de um chá básico na Mariage Frères, mas devemos levar em conta que o mercado de chá no Brasil está dando seus primeiros passos, ao contrário do que acontece na Ásia e Europa), mas mesmo assim considero o custo-benefício muito bom.

Conselho aos interessados: no site, há uma lista de estabelecimentos que oferecem os chás da marca em seu cardápio (basta clicar em “onde encontrar”). Vá experimentando aos poucos, descubra o(s) seu(s) favorito(s) para então investir na latinha. Ou então mergulhem no desconhecido (adorei 3 dos 4 que já experimentei, então o meu índice de aprovação por enquanto chegou a 75%).

PÃO: rua Bela Cintra, 1618, tel. (11) 3384-6900 (abre de segunda a sábado, das 9h às 19h, e, aos domingos, das 9h às 14h).