Passear pela vizinhança é bom. Principalmente quando a vizinhança é amiga. Entrar em uma loja, compartilhar descobertas e criações, conhecer lugares novos, pessoas novas, percorrer prateleiras de uma livraria que faz tão parte da minha história, onde me perco, me encontro e me deparo com pedaços de outros passeios que aconteceram anos atrás.

Ao abrir um livro fui, por alguns instantes, transportada a Berlim, cidade onde passei uns 4 dias com o Puri fazendo coisas banais. Ainda trago na pele a sensação dos ar preenchendo completamente meus pulmões em caminhadas por avenidas amplas e passar longos períodos deitada na calçada de um café que não existe mais e em cujo banheiro havia um exemplar em inglês do Tao Te King. Poderia reconhecer o cheiro das máquinas de escrever nos brechós, dos tipos em metal expostos em uma barraca no mercado das pulgas e sentir novamente meus olhos lacrimejarem no Museu Bauhaus, onde andei por corredores do passado e do futuro.

E assim meus olhos ficaram ontem ao abrir um livro e me deparar com o bule mais lindo do mundo (que faz parte do jogo de chá mais lindo do mundo). Os nomes oficiais são Tac Tea Pot e Tac Tea Service, respectivamente, criados por Walter Gropius, arquiteto e fundador da escola Bauhaus, para o Rosenthal Studio em 1969.

Alguns acham esta estética fria, simétrica ou até técnica demais (função, forma, cor, material e processo produtivo são elementos importantes na elaboração do design). Simples e harmônico, acho que Bauhaus é um reflexo de um pensamento de Gropius, que via o design como parte integral da vida. Outro ponto interessante a comentar aqui: a influência do design japonês.

Eu me entrego a Bauhaus. É uma escola que me toca profundamente. Em algumas peças, eu sinto que a ausência de referências ou de coisas, esse vazio, me permitisse preencher tudo isso com minhas memórias sensoriais. Nada de retratos de família pendurados na parede contando uma história. Posso construir a memória de maneira mais sutil, praticamente invisível, intocável.

E ainda nem cheguei no aspecto “conforto”. Eu acho que ele vai além da proposta de “praticidade”. Basta olhar para a alça da xícara da foto acima ou para a tampa do bule na primeira foto do post. Como seus dedos se encaixariam ou segurariam os utensílios? A minha resposta seria: “de maneira confortável”. E isso é uma característica dos bules Bauhaus: “interessantes e agradáveis de segurar”, sem falar de outras vantagens, como conservar a temperatura e evitar que a bebida escorra pelo bico ao terminar de servir uma xícara.

Todos esses princípios já estavam lá no jogo de chá assinado por Whilhem Wagenfeld (que foi aluno e depois professor da Bauhaus) em 1931. O famoso bule de vidro, criado então para Jenaer Glaswerk Schott & Gen, é sonho de consumo atemporal.

Eu ainda fico com o modelo de Gropius. E você?

Resolvido meu problema do café da manhã. Encontrei um bulezinho chinês simples, de porcelana e com um filtro fundo para preparar uma xícara de chá.

Ele é individualista, sim, mas prático. E intimista, se você busca um olhar mais filosófico do objeto.

Desde que comecei a ler mais sobre o assunto, achei que precisava de um bule para fazer uma comparação com as minhas canecas (igualmente individualistas, práticas e intimistas) que possuem um filtro mais raso. Eu nunca vi nenhum problema nelas – pelo contrário – uma das canecas é um xodó (prometo escrever sobre cada uma delas em posts futuros)… até descobrir que as folhas de chá precisam de espaço para crescer e os filtros rasos (ou sachês muito pequenos no caso de chás de saquinho) não dão muito espaço para isso.

Sinceramente, eu não percebi diferença no sabor do chá, mas, depois que o chá fica pronto, dá para ver que as folhas “crescem” mais. Arriscaria até a dizer que elas ficam mais felizes… O fato é que eu estou achando divertido usar o bule, ele é bem prático para fazer um chazinho pela manhã. Tanto que até comprei outros que dei de presente para duas amigas para que elas possam ter seus interlúdios intimistas.