A consequência da yoga matinal + chuvarada foi um banho bem quentinho e uma xícara de chá papeando com uma grande amiga no telefone (a amiga em questão é a fotógrafa Daniela Picoral, que, além de também adorar chás, faz as mais lindas fotos de casamento que eu tenho visto junto com o Gui Maranhão, seu marido e outro fotógrafo sensível –  uma amostra do trabalho deles está no blog da Dani, o “diga sim“). O pretexto do ventinho e a vontade de aquecer o coração foram duas excelentes desculpas para eu finalmente abrir o novo pacote de senchá comprado nas últimas andanças pela Liberdade…

Outros itens que guiaram a minha escolha além da linda embalagem: a quantidade de chá que vinha no pacote (45g, ou seja, menos de 30 xícaras), o fato de eu nunca ter tomado este senchá (a marca é Tanaka, importada pela Marukai, que é um excelente supermercado localizado na Galvão Bueno, e ele é classificado como “senchá karigane”, pois vem misturado com caules de gyokuro, mas isso eu só fui descobrir depois) e também seu preço: R$ 5,10 (afinal, trata-se de um subproduto, mas geralmente extraído de folhas de alta qualidade).

Abrir o pacotinho foi uma surpresa: um misto de susto (até descobrir que se tratava de uma qualidade de chá que mistura galho e folhas, achei o aspecto levemente grosseiro) e encantamento (afinal, quando joguei um pouco no pires para melhor observar, a manhã chuvosa iluminou o gosto que estaria por vir).

 

E o papo no telefone continuava com barulho de chuva, descobertas e cheiros…

Juro que fiquei com vontade de mastigar os galhos feito saladinha. Estou falando sério e, quando fizer isso, prometo relatar a experiência. Não fui muito fundo no modo de preparo pois, além de estar falando no telefone (você pode pensar “que espécie de cerimônia do chá é essa?”, e eu respondo “chá na varanda com papo pelo telefone e trilha sonora de chuva tem toda a graça do mundo também”), eu estava muito concentrada no aspecto visual tanto da embalagem quanto das folhas. Ou seja, a descoberta teve um aspecto freestyle que eu acho bem coerente.

Apesar de parecer um tanto quanto distraída nessa primeira degustação, não pude obviamente deixar de prestar atenção em seu sabor: o que eu realmente espero de um chá verde, com bastante tanino (polifenois que não possuem gosto ou aroma, mas são responsáveis por aquela pegada que sentimos na língua quando bebemos vinhos e chá verde) resultando em um rico umami (um dos cinco gostos básicos – os outros são doce, salgado, amargo e ácido – a palavra, de origem japonesa, é usada para designar algo saboroso).

E viva os 18 graus em São Paulo!

Se você quer experimentar esse subproduto de sabor muito digno, deixo as coordenadas da lojinha que ele foi encontrada: a Mercearia Oriental (rua dos Estudantes, 38). Embora ela seja meio desajeitada, eu adoro sua autenticidade – desde os penteados das balconistas e trilha sonora  peculiar (enka ou músicas infantis, depende do dia) até o cheiro da cozinha da casa da tia Ruth (igualmente bagunçada e cheia de detalhes e descobertas). O clima old school e as verduras frescas na porta faz dela um dos meus lugares favoritos para comprar comida no bairro.

Apesar de ter finalizado a maior parte dos meus trabalhos, a semana foi corrida – fiquei meio barata tonta em meio a tantos afazeres. Ontem não foi diferente, mas tentei deixar o tempo fazer o seu tempo.

Depois de ter acordado cedo e feito trajetos inusitados que cruzaram SP de ponta a ponta, fui parar na Liberdade. Já tinha combinado de almoçar com amigos de faculdade (Xavier, Puri e Ce) perto do Bunkyo, mas decidi ir mais cedo porque eu queria conhecer o Kohii Café e Cultura no subsolo do prédio do Nippak na rua da Glória. Sentei lá para esperar pelo Puri e seguirmos juntos para a esquina da São Joaquim com a Galvão Bueno.

A grande alegria foi, depois do entra-e-sai por algumas mercearias embaixo de sol e mais de 30 graus (e eu desesperada porque meu leque estava perdido pela minha bolsa), finalmente achei um subsolo, um ventilador, uma certa calmaria e um chá gelado SEM ADOÇANTE (rápido comentário: eu adoro chá gelado doce, mas confesso que tem minha garganta anda meio amarrada com essa onda de chá industrializado com aspartame).

Eu simplesmente AMO mugicha, principalmente no verão. Aprendi a tomar com a minha prima Cris, que morou no Japão por um tempo. Quando ela voltou para São Paulo, deu uns saquinhos para minha mãe, que me deu alguns que eu preparava em dias quentes. Fiquei um tempo sem tomar até colocar meus pés em Tokyo no verão mais quente e úmido da minha vida. Eu logo comprei um pacotão de mugicha no supermercado e havia uma jarra que se alternava entre ele e chá verde na geladeira. Era assim todos os dias.

(sem contar nas paradas “obrigatórias” nas máquinas de bebida no meio da rua, onde a gente se abastecia de chá gelado)

Outra coisa bacana que me liga ao mugicha (e Tokyo) é ter sido recebida com esta bebida na casa ou estabelecimento das pessoas. Foi assim na Mizuma Art Gallery, em Nakameguro, onde bati na porta depois de passar um tempo perdida no labirinto de ruas das redondezas. E foi tomando um mugicha geladíssimo que folheei aquele livrão do Makoto Aida. O mesmo aconteceu quando entrei na casa da família Kobayashi, onde meu avô nasceu, em Ishioka. Minha tia avó apareceu com uma bandejinha com mugicha em copo transpirando, acompanhado de bolachinhas aeradas meio salgadas meio adocicadas.

A sensação instantânea é de que te arrancaram de uma sauna a vapor para te colocar sentada em uma nuvem fresquinha, de frente para um ventilador ligado em potência média.

Fiquei tão apaixonada que saí de Tokyo não apenas com os pacotes de mugicha na mala, mas também com uma jarra super prática que comprei na Muji (uma das minhas lojas-fetiche). Ela tem uma peneira de plástico para acomodar o saquinho de chá, que pode ser retirada quando a bebida ficar do seu gosto, e também pode ser acomodada de pé ou deitada para não ocupar muito espaço da geladeira.

Esta jarra é a de 2 litros (a minha é um pouco menorzinha). Obviamente, você não vai precisar exatamente dela para preparar a bebida, qualquer jarra serve.

O MODO DE PREPARO é muito simples. Você joga um saquinho em uma jarra com 1 litro de água, guarda na geladeira e esquece disso por algumas horas. Não sei dizer quantas horas (mas prometo prestar atenção da próxima vez que fizer para descrever aqui), porque geralmente eu avanço na bebida tão logo ela fica gelada e pega cor. Se está fraca demais, eu deixo mais um pouco e, se está forte demais para o meu gosto, acrescento cubos de gelo (feitos de água) para diluir o sabor.

Como eu não leio japonês, não sei o nome das marcas que compro (geralmente, é uma dessas duas). É fácil de encontrar em qualquer mercearia no bairro da Liberdade (se você não mora em São Paulo, mas tem alguma lojinha com produtos japoneses por perto, é provável que você encontre uma das marcas). Para ter certeza de que está comprando a coisa certa, procure na etiqueta sobre o produto algo como “CHÁ DE CEVADA”. Como você pode ver pela cor, é um chá tostado.

Se tiver com preguiça de passar por todo este processo, vá para o Kohii. Acredito que seja um dos poucos lugares em São Paulo que servem mugicha. Depois aproveite para me contar se a comida de lá é boa (eu não provei nada porque estava guardando meu apetite para o almoço, mas fiquei com um pouco de pé atrás com um cardápio brazuca-japa com ingredientes da cozinha francesa). Apesar de o ambiente ter uma decoração que me deixou um pouco esquizofrênica, ainda assim temos mesas amplas, sofá confortável, revistas japas, ventilador e  mugicha para escapar da muvuca.

KOHII: rua da Glória, 326 (subsolo), tel. (11) 3203-0624.