“Às vezes, a reunião de chá é feita com uma surpreendente seleção de utensílios. Entretanto, caso o anfitrião e convidados se preocupem apenas com os utensílios, em detrimento do seu relacionamento pessoal mais íntimo, a reunião terá a nódoa de uma exibição particular numa galeria de arte. Essas reuniões, baseadas unicamente na ostentação, não têm qualquer valor no que diz respeito ao espírito do chá. Somente quando  o relacionamento do anfitrião com o convidado é colocado emprimeiro plano é que os utensílios inanimados vêm à vida e mostram seu valor.”

* postal que conta histórias enviado pelo Plinio no último carregamento, trazido pela Lúcia

chá sem chá

05/10/2010

Sublimes encontros podem acontecer “a seco”, sem nenhuma sombra de folha de chá por perto.

Ontem, o que era para ser uma rápida visita à Cidade Universitária acabou se prolongando mais do que o planejado. O que foi ótimo, pois assim eu me encontrei com uma amiga que não via há muito tempo. Mas até chegar ao local combinado com ela, eu me perdi e o caminho imperfeito me levou até um pedacinho de mato de onde brota um pilar de concreto e, no alto dele, um sino. Instintivamente, olhei para o chão procurando pedrinhas no meio de gramas e flores caídas. Encontrei uma filha única que foi lançada ao alto com a certeza de que acertaria o sino de primeira. Errei. E provei novamente, à beira dos 34 anos, uma das apreensões de minha infância: jogar uma pedra ao alto e esperar um momento ao silêncio para saber se ela vai ou não atingir o sino, se teremos algum som. Desta vez, eu não tinha minha mãe para jogar a pedra e acertá-la. E pior, ao errar, não avistava outra pedra.

Mas poderia sair de lá sem reconhecer o som do sino que permanece no mesmo lugar quase trinta anos depois?

Nessa hora eu já tinha esquecido que não tinha conseguido me inscrever no tal curso, que a Cássia teria que me esperar por mais cinco minutos ou quanto tempo ainda teria que esperar o Saiki terminar de lixar as madeiras. Fui apenas em busca de uma pedra e a encontrei. Cheguei mais perto do sino ainda sem saber se seria fácil ou não acertá-lo, lancei a pedra e peguei o atalho que me levou ao encontro da Cássia e de uma grande árvore.

Apaguei a cena da minha mente no restante do dia. Só fui recuperá-la na leitura de Vivência e Sabedoria do Chá, escrito por Soshitsu Sen XV, 15° discípulo do mestre Rikyu. O capítulo  falava de wabi, a beleza do simples e que, por isso, geralmente é associado à elegância do rústico, modesto, humilde, discreto. Assim recuperei o chá que tomei comigo aos 5 anos de idade jogando pedrinhas para acertar o sino da reitoria.

esta imagem aqui postada foi retirada do flickr artexplorer, que tem ótimas imagens de locais públicos de São Paulo

Quem conhece a Japonique, na Vila Madalena, logo vicia. A loja fica perto da minha casa, chego lá em 10 minutos a pé, e evito a muvuca da Liberdade nos finais de semana.

A Japonique não é apenas uma “lojinha de produtos japoneses”. Eu diria que ela está mais para trendshop, com ótima curadoria dos próprios donos, a designer Jana Tahira e Marcelo, que testam os produtos que vendem, têm sempre uma informação útil sobre um tema de seu interesse e conhecem a fundo o Japão contemporâneo e pop.

Recentemente, os chás orientais, que ficavam em uma prateleira no fundo da loja passaram a ocupar uma estante inteira, juntamente com utensílios japas…

É um dos poucos lugares em São Paulo fora do circuito Liberdade onde você pode encontrar uma variedade razoável de chás japoneses. Se você der sorte e cruzar com a Jana circulando pela loja, terá dicas personalizadas ao seu gosto e um bom papo.

Foi na Japonique que fiz duas aquisições que estavam na minha “wish list” há um tempo:

1) O livro The Tea Companion, escrito pela especialista Jane Pettigrew, que eu estou devorando e aprendendo muitas coisas novas (inclusive algumas das dicas que aparecem aqui).

2) O gyokuro (que significa “gotas de orvalho”), chá verde japonês de alta qualidade. Ele tem um sabor acentuado, mas suave e levemente adocidado. Merece um post exclusivo.

A loja fica na rua Girassol, quase na esquina com a Aspicuelta.

JAPONIQUE: rua Girassol, 175, tel. 3034-0253 (abre de segunda à sexta, das 11h às 19h, e aos sábados, das 10h às 18h).