Desde o último post que me exigiu uma parada para me refazer um pouco, muita coisa aconteceu: um encontro relâmpago com uma amiga querida que estava de passagem por São Paulo (entre Londrina e Chicago), uma tarde na casa de outra (nova) amiga (e vizinha) para a gente juntar nossos chás da Revolution, bebedeira de chá gelado, um reencontro com amigas de longa data e um almoço com cara de amigo secreto com outra amiga recente, que está de partida.

Sem contar na mudança de rotina que me deixa absorvida por uma causa que não deixa de ser uma retomada de projetos antigos e sonhos relativamente recentes – ela tem nome, se chama Childhood e estou completamente maravilhada com as possibilidades que o universo nos apresenta quando estamos com os sentidos abertos.

Os ventos se movimentam e me movimentam.

O mundo online ficou temporariamente abandonado (será assim por mais alguns dias), mas os sabores me acompanharam nesse período de descobertas – o maior clima de ano novo! Registrei o que estava ao meu alcance, pois nem sempre viver permite tantos registros…

“o chai da Kênya”

Se eu tivesse conhecido a Kê quando criança, não tenho dúvida de que nossa brincadeira preferida seria com panelinhas e bulinhos. Além dos livros, filmes, seriados, exposições e amor por nossas sobrinhas, compartilhamos receitas e dicas de cuidados com a casa, o corpo e a saúde. Faz um ano e meio que não moramos na mesma cidade, mas a troca continua. Dessa vez, ela trouxe de Chicago, diretamente do Whole Foods (uma cadeia de supermercados bio nos EUA que conheci pela minha irmã – aliás, toda vez que ela volta das compras, comenta um pouco mais sobre o corredor dos chás), uma linda lata de chai. Coincidentemente, na semana anterior ao nosso encontro, eu estava em busca de uma boa receita de chai para me ajudar a suportar o calorão (uma coisa que eu aprendi no Japão frequentando os banhos públicos de bairro foi subir um pouco a temperatura do corpo para logo em seguida sentir as noites alucinadamente quentes um pouco mais frescas – funciona bem).

Com o chai não foi diferente.

A marca Ineeka segue uma filosofia politicamente correta, impressa em todas etapas de fabricação e parcerias: ingredientes orgânicos, parceria com comunidades, responsabilidade social e responsabilidade ambiental. Mas mais do que isso, queria registrar 2 boas surpresas:

1) O sabor nada enjoativo (se tem coisa que eu abomino é chá com sabor de quentão, e o chai é uma bebida que tem o maior potencial para isso acontecer – colocar gengibre e cravo juntos é muito arriscado nesse sentido). Mas o Ma-chai da Ineeka está bem longe disso, a mistura de chá preto Assam, gengibre, cardamomo, pimenta preta, cravo, pétalas de rosa e açafrão é bastante equilibrada. Um pouco de leite e açúcar ajudaram a refrescar a minha noite – e não tive insônia de tomar chá preto às sete da noite.

2) Os sachês da Ineeka. Não vale descrever – deixo as fotos para deixar qualquer designer de embalagens com a cara no chão. Basta desdobrar umas abinhas e encaixá-las nas bordas de sua caneca. Ele ainda fica abertinho, com o chá respirando e as especiarias boiando, felizes. Morri.

Simples, inteligente e prático.

“tarde de inspiração com a Lu”

Mudar de casa me deu de presente uma nova amiga e vizinha. A Lu é o tipo de amiga que topa fazer tudo e transforma tudo em acontecimento próspero. Tem um pequeno lago com carpas no fundo de seu quintalzinho… Em uma dessas tardes de prospecção, reunimos nosso estoque de chás da Revolution. Não conseguimos experimentar todos os sabores (restringimos nosso chá das cinco degustativo a dois blends apenas), mas tivemos ideias, falamos, reforçamos nossa parceria e blablablá.

Pequeno parêntese para falar sobre a Revolution, uma marca americana de chás: ela foi descoberta bem por acaso, visitando a loja de chás preferida da Graziela em Praga. Eram tantas possibilidades de misturas, marcas e acessórios (inclusive presilhas para saquinhos!) que saí de lá zonza. Além do blend “segredos de Praga”, que está na lista dos meus TOP 5, saí da loja com umas embalagens individuais de Revolution e uma pequena lata com 6 de saches de earl grey com lavanda da mesma marca. Há um apelo emocional tão forte dessa história devido a minha amizade com a Gra, que incentivou muito essas descobertas, conhecer a loja ao vivo e a cores e a redescoberta do sabor do earl grey, que me fazem sempre associar a Revolution com novidade. Depois que eu reuni meu acervo e o da Lu, notei que os blends da marca são bem ousados, trazem misturas que eu não conseguiria imaginar (o próximo da minha lista é o Tropical Green Tea, que traz chá verde, aroma de abacaxi e casca de frutas cítricas – verão, continue, por favor).

Não faz muito tempo que a Revolution chegou no Brasil e você pode descobrir os pontos de venda no próprio site da marca.

Uma coisa bem legal é que é possível comprar uma embalagem individual e assim dá para experimentar vários sabores. A embalagem individual, chamada de T-Box, costuma ser vendida em um conjuntinho de 5 chás diferentes. A gente juntou as nossas caixinhas em cima do apoiador de mesa que foi presente da Marinês, mãe da Kênya, que tem um lindo trabalho em metal (eu sou apaixonada pelas colherinhas dela, se você quiser conhecer mais sobre o trabalho da Marinês, que mora em Londrina, visite este link – ela vende online e envia pelo correio). Voltando às embalagens, há outra versão que eu adoro, a T-Mini, uma latinha com 6 saquinhos do mesmo chá, e a caixa com 16 (para comprar depois que você gostou mesmo) que vêm em uma embalagem com ziplock, para o chazinho não perder seu sabor e aroma. Outra especificidade da Revolution são seus infusores transparentes (dá para viajar com os blends coloridos feitos com as folhas inteiras do chá), sem fiozinho (você joga na água e deixa boiando por um tempo – depois dá para tirar com a colher e pronto) e 100% biodegradáveis.

Obviamente, eu e Lu fomos de Earl Grey Lavander (eu, que sou uma pessoa um pouco viciada, quando gosto de uma coisa, costumo repetir e fico oferecendo para os amigos provarem), que é bem perfumado, e Sweet Ginger Peach Tea (gengibre, de novo, outro vício meu, para suar um pouco mais), que tem uma base de chá preto (Assam e Ceylan), aroma de pêssego e gengibre, de sabor delicado.

“ICED Gourmet Tea”

 A série “chá gelados” traz uma grande novidade no mercado: a Gourmet Tea acabou de lançar uma linha de chás gelados com 5 blends refrescantes. Esqueça a praticidade do mugicha, que você joga na água e larga na geladeira. O processo é o mesmo de fazer um chá quente: você coloca a água para ferver, avalia a temperatura, a quantidade de chá, o tempo de infusão. Depois, deixa esfriar e leva à geladeira. Parece um pouco trabalhoso… Ok, na verdade é um pouco trabalhoso. Mas é uma excelente alternativa de sabores para quem, como eu, só toma chá gelado de hortelã ou cevada (mugicha).

Eu enchi uma térmica com White Berry Iced Tea, uma mistura de chá branco, rosa mosqueta, rooibos, chá verde, folha de amora preta, hibisco, frutos de sabugueiro, framboesa, morango e aromas naturais. Como tem rooibos na sua composição, ele é levemente doce (eu dispenso o açúcar fácil fácil), mas tem um toque azedinho por causa das berries – eu adoro chá de folha de amora, então não foi muito difícil virar fã.

“passado-presente-futuro”

Momento muito especial de um domingo. Fui me encontrar com Taty, Karina, Márcia e Xixa, que são amigas de muitos (mas muitos) anos no Le Pain, para nos despedirmos da Taty, que está mudando de cidade. Fazia muito tempo que não me reunia com elas. Duas pessoas que não saíram na foto: a Mônica, prima da Taty, que também estava lá e tirou a foto, e a Sô, minha irmã, que fez falta no encontro. Pequena dica para quando for ao Le Pain: peça croissant com manteiga na chapa e chá verde com jasmim (d’A Loja do Chás). E se eu fosse falar destas amigas, da longa história de amizade comigo e com minha irmã, eu teria que fazer um blog inteiro para falar só disso…

“chás secretos”

Claire está de partida e fizemos um almocinho especial. Antes do encontro, preparei umas trouxinhas de bons chás nacionais de saquinho, cuja marca não revelo para não estragar a surpresa de um próximo post. Preparei outros pacotes, que também não conto para não estragar outras surpresas. Enquanto caminhávamos a pé, para o café-livraria, ela me declarou herdeira de seus sachês de tisanes, chá verde com menta (adooooro), Thé des Amants (chá preto com maçã, amêndoa, canela, baunilha e gengibre), do Palais de Thés e um pouco de Butterschotch (ainda desconhecido para mim), da Mariage Frères.

Comentário que parece meio óbvio para encerrar este longo post: depois das trocas com a Claire, comecei a reparar na “personalidade chazística” das pessoas. Acho que a Claire, em tão pouco tempo, me apresentou novos – e característicos – sabores. Não percebi isso com o Plinio ou a Kênya, por exemplo, seus gostos são bem parecidos aos meus: verdes, com toque cítrico ou levemente floral. Carline segue um pouco a mesma linha da Grazi, chás adocicados e perfumados (canela, rosas, cravo). Claire chega com chás densos, com baunilha, amêndoas e frutas de sabores fortes, uma menina acostumada a longos invernos.

A duração da conversa não passou de 2 fitas (60 minutos/cada) – aliás, usamos apenas no começo da segunda fita – e tinha momentos em que parecia que a conversa nem tinha começado. Em outros, parecia que eu estava falando depois de muitas horas. Foi assim que eu e Claire nos encontramos ontem no final da tarde (pré-chuvarada) no jardim de pedras no fundo da Japonique. A conversa já tinha conversado no dia anterior, no domingo, no meio de sorvetes e café, quando lhe contei sobre a performance da cerimônia do chá que fiz em 2008.

Claire está fazendo um documentário sobre arte e identidade nipo-brasileira, entrevistando pessoas no Brasil e no Japão.  Por isso conversamos em meio a câmera, fitas, fones e microfone. É impensável falar da minha relação com o Japão é com a cultura japonesa, sem falar de Paris (cidade onde Claire nasceu e mora), até hoje minha principal plataforma de acesso ao Japão. Foi de lá que embarquei para Tóquio, onde conheci mulheres japonesas, pude ter acesso a livros que falavam sobre comportamento e aspectos sociais do país e que tive meu primeiro clique com chás. Da mesma maneira, é impensável falar da minha busca pelo Japão sem tocar no nome da Flavia Yumi Sakai, minha irmã de descobertas.

Por isso, a cerimônia do chá desta manhã, mesmo que solitária, só poderia evocar a presença da Flavia e da Claire. Coincidência ou não, a lista das estreias de 2011 tinha apenas dois itens, dois presentes: um bule de cerâmica que ganhei da Flavia no final do ano passado (depois de um encontro com amigas que aconteceu no ateliê de cerâmica da Jane Heinrich – aliás, o lindo bule tomou forma em suas mãos) e uma lata de Mariage Frères (MINHA PRIMEIRA LATA PRETA!!!) com o chá preferido da Claire, que chegou pela sua mãe em São Paulo e virou presente no final da entrevista.

Apesar de já ter falado (e muito) dos chás da Mariage Frères, é a primeira vez que eu tenho acesso a uma latinha preta minha, do início ao fim (merci, Claire). Eles sempre chegaram embalados em sacos, pois é muito mais fácil de transportar na mala. Eu nunca tinha pensado no desejo de possuir a latinha preta, mas tão logo desembrulhei o pacote, eu delirei.  Abri a lata correndo para sentir o aroma, mas ela estava lacrada. Consegui me controlar, pois percebi que a tampa da lata não a veda suficientemente bem para ela ser aberta e guardada dentro da bolsa sem que o chá se espalhe todo.

Hoje pela manhã, eu mal levantei a argola do lacre e já sentia o perfume do chá preferido de Claire.

O Thé à L’Opéra é um chá verde aromatizado com frutas vermelhas e baunilha.

Corri para colocar a água para ferver, feliz em saber que a água aquece muito rápido no fogão da minha mãe.

Então fui desbravar o bule da Jane H. Eu tinha namorado muito esse bulinho que estava discreto em uma das estantes do ateliê.  A Flávia o sequestrou escondido para a embalagem de presente. Tudo isso e eu nem o conhecia por dentro…

Água fervida, desliguei o fogo e terminei um chat com a Lu Sato, para dar um tempo para a água esfriar. Como meu termômetro está encaixotado em algum lugar, foi pelo dedo que senti a temperatura branda (chuto por volta de 70 graus). Como estava sem termômetro e sem peneira, dispensei também o medidor. Salpiquei um pouco do chá dentro do bule. E  me dei a licença poética de deixar algumas folhas caírem…

O chá é delicioso, bastante perfumado, com a baunilha quase imperceptível (vou tentar fazer mais forte para ver se sinto mais) e um sabor bastante acentuado de frutas vermelhas. Me lembrou um pouco o chá da Monalisa, mas o Thé à L’Opéra é mais forte, de sabor marcado, com cara de inverno. Tô torcendo para dar chuva com vento no final da tarde (mais vento do que chuva) para repetir a dose.

A dica veio da Isabella Maiolino, amiga querida que escreve o delicioso blog My Kind of Town! com dicas de cultura, gastronomia e compras em São Paulo escritas no melhor estilo bonne vivante! A Isa mora em São Paulo há alguns anos e conhece os Jardins de cabo a rabo. Depois de um almoço em uma tarde que prometia aquele pé d’água, ela me fez prometer passar na Pâtisserie Douce France para averiguar os chás da marca francesa Mariage Frères que são servidos na loja. Eu estava quase desistindo, mas fui subindo a Alameda Campinas a pé e obviamente não resisti. Até porque eu mesma já estava pegando bode dos posts louvando minha marca de chás-fetiche e não dar uma indicação de lugar onde se pudesse degustar um mariage em São Paulo.

Pois chega de conflito.

Ao sentar em uma das mesinhas do salão, deixe o cardápio de lado (a não ser que você queira apreciar as ilustrações fofas da artista Eveline Imbert ou escolher acompanhamentos, coisa que não fiz porque eu tinha acabado de sair de um almoço demorado). Só não espere descrições dos blends disponíveis; você vai encontrar apenas as opções “chá” (R$ 6,50) ou então “chá de hortelã fresco” (R$ 7,50), ou algo do gênero. Se você não deseja importunar o garçom com milhões de perguntas sobre… chás (como eu fiz), entre no salão, procure o balcão da cafeteria e torça para que a atendente Ivonete esteja por lá porque ela pode preparar um chá com o maior carinho para você se o salão não estiver cheio.

O chá vem servido em um simpático bulinho com um infusor dentro (não é meu infusor favorito, pois as folhas não têm muito espaço para crescer e, na minha doentia percepção, sinto um leve gosto de inox na bebida) – aconselho não esquecer o infusor eternamente lá dentro para a bebida não ficar com um sabor tão forte. Convém retirar uns 30 segundos depois de a bebida chegar na mesa (ou imediatamente caso o chá escolhido seja algum verde) – a dica é do meu cronômetro imaginário que fica pensando o tempo que se passou no momento em que a água foi despejada no bule até o instante em que ele é servido na mesa…

Eu pedi um chá de maçã, que não é dos meus favoritos, mas foi um dos primeiros citados pelo garçom e um mariage para mim desconhecido (ainda não tinha ido até o balcão escolher o chá pessoalmente, ato que vale a pena, pois há uma caixa com uma grande variedade de Twinings para quem prefere os chás ingleses). Contei 8 variedades de Mariage Frères (incluindo o clássico Marco Polo, que definitivamente entrou na minha top list, Earl Grey, Darjeeling e a a escolha da próxima visita à pâtisserie: Jasmin Mandarin feito com chá verde chinês…).

Mas a grande surpresa veio depois de um papo com a Ivonete (e a chuva despencando do lado de fora): o chá feito com sementes de chá verde (na verdade, folhas enroladinhas de procedência não revelada – o segredo da casa?) com hortelão fresco servido em uma taça de vidro…

Quero esperar a chuva sempre assim…

… da próxima vez, acompanhada de uma boa pâtisserie (a nostalgia grita só de olhar um folhado de maçã – chausson aux pommes do chef pâtissier Fabrice le Nud)

PÂTISSERIE DOUCE FRANCE: alameda Jaú, 554, tel. (11) 3262-3542.

foto cortesia da Cássia Hosni, com quem degustei meu primeiro Marco Polo (Mariage Frères), versão saquinho, e que me ajuda a fabricar as xícaras dos meus sonhos

transformação

24/09/2010

as folhas do Casablanca em processo. vapor fresco e beleza alquímica.

Uma das experiências mais solitárias que eu já experimentei é a de passar um tempo em um hospital. É incondicional pensar sobre a hora da morte (mesmo se ela não bate exatamente na sua porta, salvo em alguns casos) e a lembrança da vida chega a cada toque, abraço, telefonema, carinho. Ou em uma xícara de chá.

Há uma semana ocupo o posto de acompanhante no quarto 450. O procedimento, que demorou dias para ser aprovado pelo convênio, acontece agora e tudo será muito rápido: exame, repouso, alta. E foi apenas nesta manhã que descobri meu acesso livre à máquina de água quente na copa do nosso andar (depois de ter passado quatro dias “órfã” do conforto dos meus chazinhos, do meu pequeno ritual, da minha meditação).

Estou me virando com o que tenho: o pires, a xícara branca e o bule de inox do hospital e o coadorzinho japonês que tenho carregado comigo.

O glamour do Casablanca (chá verde com hortelã e chá preto com bergamota, da Mariage Frères) foi superado pelo significado simbólico dos pacotes que chegaram pelas mãos da Lúcia Monteiro. Puri percorreu Bordeaux e depois Paris na composição do presente enviado (e devidamente recebido), que vai além das folhas perfumadas e tende mais a um abraço aconchegante. E Lúcia fez outra via sacra: comprar as encomendas, juntá-las ao presente do Puri e embarcar tudo em sua mala. A bagagem extraviada durante 4 dias rendeu sacos abertos, roupas perfumadas pelas folhas de chá, um mélange especial dos diferentes blends espalhados por sua mala e nosso encontro ontem no jardim da Casa das Rosas para tomar uma soda italiana.

Taí o resultado de encontros e desencontros do dia 24 de setembro, data comemorativa das pontes e tubos invisíveis para mim e para o Puri desde 2003. Sete anos depois, vivo um novo dia intenso, de encontros, desencontros e reencontros, assim espero. O refrão se repete: solitude, proximidade e distância. Fez com que eu me lembrasse de duas listas que eu gosto muito do Livro de Cabeceira, de Sei Shonagon.

Things That Are Distant Though Near
Festivals celebrated near the Palace.
Relations between brothers, sisters, and other members of a family who do not love each other.
The zigzag path leading up to the temple at Kurama.
The last day of the Twelfth Month and the first of the First.

Things That Are Near Though Distant
Paradise.
The course of a boat.
Relations between a man and a woman.

Faz uma semana que estou enrolando para escrever este post. È que falar de Mariage Frères envolve uma certa responsa. Não escrevo isso só pelo nome da loja até porque minha filosofia de vida vai contra o pagar caro por um logo ou etiqueta. Trata-se muito mais do savoir-faire de uma família de comerciantes altamente prestigiados em Paris que abriu uma loja em 1854 para vender os chás que comercializavam havia mais de um século. Ou seja, os caras têm uma bagagem de mais de 300 anos: a história do chá na França se mistura à história dos irmãos (frères) Édouard e Henri Mariage, que fundaram uma dinastia do chá por assim dizer. E assim fizeram uma ponte entre a Europa e o Oriente quando as pessoas ainda viajavam de navio.

Eu sempre achei a loja opulenta demais para o meu gosto e nunca consegui comprar nada lá ou frequentar o salão de chá. Deixava para tomar chás da Marige Frères de saquinho mesmo, em café ou restaurantes. Hoje me arrependo profundamente. Reconheço que por puro preconceito deixei de ter experiências que hoje valorizo muito. Mas c’est comme ça

Então, tão logo soube que uma amiga que mora em Paris embarcaria para o Brasil, fiz uma encomenda de dois clássicos, Marco Polo e Casablanca, mas teve outro que chegou antes, meio de surpresa…

*

Este saquinho, que vocês veem no início do post, percorreu várias mãos e muitos quilômetros para chegar até aqui. Ainda em Paris, minha amiga Kênya saiu da sua casa no 14ème arrondissement e foi até uma Mariage Frères (não sei qual delas) para depois se encontrar com outra amiga nossa, Taíssa, e entregar o pacote em mãos. Taíssa saiu da sua casa em Fontainebleau e seguiu até o aeroporto Charles de Gaule e embarcou com o presente até Cumbica. De Guarulhos, foi para São Paulo, onde nos encontramos, mais precisamente no bairro do Itaim-Bibi. O chá ainda percorreu alguns (poucos, desta vez) quilômetros até Pinheiros, onde estreei a degustação junto com Paula e Dudu (que também conhece a Taíssa), sócios da Editora Flâneur, que publica a n.magazine. Estávamos comemorando o fechamendo da edição de número 2 da revista (linda por sinal)!

Acho que os irmãos Mariage ficariam felizes de saber dessa trajetória.

O que mais me chamou atenção no pacote foi a etiqueta, que trazia não apenas o nome do chá – YUZU TEMPLE – mas também duas indicações importantes: 90ºC/2 minutos (a temperatura da água e o tempo de infusão – digníssimo, não?). Na casa dos irmãos Burckhardt (Paula e Dudu), encontrei uma chaleira super apropriada e carregava comigo um coadorzinho japonês, próprio para chá. Foi um sucesso!

O Yuzu Temple é um chá verde japonês com notas aromáticas de limão japonês (yuzu) e mandarina: d.i.v.i.n.o. Aconselho não deixar passar de 2 minutos, senão o picante sutil da bebida se transforma em amargor.

E a Kênya, mais uma vez, me presenteia com um chá que entrou para a lista dos preferidos – o outro é o Fleur de Geisha, do Palais des Thés, mas deixo esta história para outro dia.

* TEMPERATURA DA ÁGUA: de 90 °C  * MEDIDA: 1 colher de chá por xícara * TEMPO DE INFUSÃO: 2 minutos *