um pouco de paz

11/03/2011

permissão para entrar em sua rotina por 5 minutos

Thich Nhat Hanh – Plum Village Meditation Center

obrigada, Marcelo

Tudo começou com a Jana, da Japonique, me dando dois tabletinhos de Pu Erh que a mãe dela trouxe da China. Achei a embalagem tão linda que deixei um bom tempo de enfeite junto com outros achados (o bulinho é inglês, foi a fève da galette des rois de algum janeiro que passei em Paris) na minha ex-estante de chás, esperando por alguma ocasião especial (como a estreia do jogo de chá que ganhei de uma prima e me esperava na casa da minha mãe).

Essa história de ocasião especial dá pano para manga. Dia desses, por conta de um triste episódio, me dei conta que há coisas que ficam guardadas para serem usadas ou degustadas em “momentos especiais” e, às vezes, os momentos não acontecem ou não são reconhecidos como tais…

Tão logo recebi uma visita por acaso do Puri e da Grazi no apartamento onde até então eu estava morando que resolvi abrir o chá depois do almoço, assim, como se estivesse passando um cafezinho. Meu último encontro com eles tinha acontecido há mais de um ano, em Paris, quando a Grazi (que, na época, morava em Praga) foi nos visitar para me dar força na minha despedida da cidade e arrumação de caixas para partir para São Paulo.

Os três juntos em São Paulo é uma ocasião e tanto, não?

Grande parêntese aqui para falar sobre o Pu Erh: ele é um chá pós-fermentado, ou seja, envelhecido como um vinho (alguns tipos têm sido fermentados há até  50 anos, embora a maioria tenha entre 1 e 4 anos) e conservado em forma de tijolinhos ou até mesmo de grandes bolos prensados (há um modo de separar as folhas grudadinhas para não quebrá-las – uma das técnicas de como fazer isso pode ser vista neste link do youtube).

Alguns o classificam erroneamente como chá preto, mas ele é simplesmente Pu Erh, que tem como origem do nome uma vila na província chinesa de Yunnan conhecida como um importante centro comercial da Rota dos Chás e dos Cavalos. Ele é o chá utilizado na cerimônia do chá chinesa: a primeira infusão, feita com água recém-fervida  (90°C) e que dura poucos segundos, costuma ter um gosto bem forte, e é utilizada para lavar os utensílios. Bebe-se geralmente a partir da segunda infusão feita com as mesmas folhas, em uma temperatura mais amena (entre 85 e 89°C), durante um pouco menos de 2 minutos (para o meu gosto).

Puri e Grazi em São Paulo

O que eu achei mais bonito do Pu Erh, além da cor do chá, é a sensação de familiaridade que ele me causou.: uma mistura de sabor de chá de missa (que geramente costuma ser um banchá, mas o Pu Erh não tem gosto de banchá, apenas lembra vagamente) + chá de alguns restaurantes chineses (que não sei precisar direito qual, mas reconheço como sendo a outra opção quando não quero tomar chá de jasmim) + colo (isso mesmo, colo).

É um chá redondinho, gostoso de se tomar, combina com aquele sol suave que entra pela janela sem você perceber: ele não ilumina a sala toda (pelo contrário), mas faz toda a diferença.

Sem contar a cor dele, que é linda linda…

Mas ainda havia um tablete esperando + uma sala ainda disponível + amigas livres em um domingo ensolarado + uma fase nova para mim em que a energia, o apoio e a risada de amigas foi fundamental para me ajudar a encontrar forças e me preparar para uma semana de encaixotamento de coisas.

Outra ocasião especial.

Ju, Dani, Fla, Paulinha e Carline,

conto com vocês na “reabertura dos trabalhos”!

(Jana, você também será convocada)

Para quem quiser comprar Pu Erh no Brasil, sei que há para vender na Talchá (Shopping Higienópolis) e arrisco dizer que também n’A Loja do Chá (Shopping Iguatemi), em São Paulo. Não sei se eles vêm lindos e embalados, mas aposto que, pelo nível dos chás comercializados nesses dois locais, devem ser de boa qualidade. Há uma versão da empresa Fujian Tea (que importa outros chás chineses industrializados no Brasil) de qualidade mais modesta e pode ser encontrada em mercadinhos orientais da Liberdade (comprei uma caixinha neste final de semana e prometo dar as dicas em breve).

Flavia Sakai quase colocou as flores na garrafa com etiqueta “lágrima”, mas escolheu a garrafa “vapor” para homenagear as mudanças e transformações

34 anos e 15 dias

26/11/2010

os brotos de everest estão quase todos abertos. obrigada, Ju, Bassy, Puri e Kaká por trazerem luz a esta manhã.

 


quote do livro:

“onde há chá, há esperança” (Arthur W. Pinero)

Há alguns anos (poucos, menos de cinco), ganhei de presente uma latinha com “docinhos gostosos para tomar com chá” de uma grande amiga, a Graziela Kronka. Nem sei como descrevê-la direito por aqui e arrisco dizer que ela foi uma das grandes incentivadoras do meu hábito de tomar chá. Toda vez que ela ia me visitar, chegava com um pacote de chás ou apetrechos e, juntamente com o Puri, foi me ajudando a encher o baú de blends maravilhosos, não apenas pela qualidade deles, mas principalmente porque eles nos acompanharam por várias conversas, principalmente no inverno. O presente embarcou conosco para Bordeaux para ser compartilhado com Puri e Richard (que ainda não tinha sido citado aqui, mas que compõe a nossa petite famille) para esquentar o virada de 2006 para 2007.

Junto com o presente, veio a recomendação verbal “é para colocar assim, em cima da caneca”. E a frase nunca saiu da minha cabeça, mesmo quando eu não obedecia às instruções.

Esta bolachinha holandesa (lá conhecida como stroopwafel) apareceu em outros momentos especiais: pelas mãos da Camila, na casa da Lúcia, pelas minhas mãos chegando em SP depois de passar muitas horas no aeroporto de Schipol devido a um vôo perdido (e que se tornou um dos doces favoritos do Saiki, meu namorado), pelas mãos do Felipe ou pelas minhas depois de uma passagem por Amsterdam. E agora pela Flavia Sakai, que fez uma encomenda no Sobremesas do Mundo (por sorte, eu estava no estúdio dela no dia em que a sacolinha chegou) e, ao saber que era a sobremesa favorita do Saiki, mandou um pacote aqui para casa.

O dilema da semana foi: “stroopwafel vai bem com quê?“. A Camila, que morou na Holanda, deu a resposta mais confiável: café com leite ou com chá de anis. Café com leite estava descartado, pois eu tinha que colocar a bolacha em cima da caneca de chá. E anis também, pelo simples fato de eu não gostar de anis. Passei uns dias pensando (é sério) e me lembrei que havia um pacote intacto aqui que foi mandado de presente pelo Puri e com um lindo nome: Promenade des Anglais (“passeio dos ingleses”, nome da orla de Nice). Digno, não? (por falar em dignidade, há outra história que envolve Graziela, Valmor e chás que um dia será devidamente contada aqui) Mais digna ainda é a mistura que compõe a Promenade des Anglais: chá preto com pedaços de maçã e amêndoas e aroma de baunilha.

O aroma de baunilha/amêndoas é quebrado pela maçã… delícia! É uma pena que eu não vou saber indicar a marca, pois o presente veio em um delicado saquinho sem nome de loja. E o mistério faz dele algo único, como se ele não existisse em nenhuma loja no mundo em que possa encontrá-lo (ok, eu sei que existe, mas não sei se gostaria de saber). Assim, o sabor dura o tempo do presente, assim como foram todos os stroopwafels que passaram pela minha vida.

muda de hortelã

10/08/2010

Voltei do final de semana em Piracicaba com uma muda de hortelã. Gosto muito de ter hortelã fresco para preparar uma infusão – há semanas que passo na feira apenas para comprar um maço…Agora que as plantas estão indo para frente em casa (pedimos umas dicas para a Filó, minha sogra, e colocamos todos os vasinhos no escritório, onde bate sol), tomei coragem e pedi uma muda para a sogra. Segundo a Filó, hortelã é uma planta resistente, que se espalha e cresce – coisa de mato mesmo. Eu não vejo a hora de a minha muda se proliferar…

Thé à la menthe

O hábito do hortelã fresco entrou na minha vida em 2007, quando ainda morava em Paris e comecei a trabalhar como garçonete em um traiteur libanês. Uma das minhas primeiras tarefas do dia era descer à rue Monge em direção à Place Maubert e parar em uma vendinha na esquina de uma rua estreita e pedir “huit-deux” (“oito-dois”) para a vendedora que voltava com 8 maços de hortelã e 2 de coentro. Depois eu seguia pela ruazinha para comprar pão árabe e voltar carregada de sacolas.

rue Fréderic Sauton é o nome da rua estreitinha (em cuja esquina está a vendinha vietnamita) com vista para uma das laterais da Notre Dame; toda vez que entrava na rua para buscar o pão, eu suspirava com o “passeio”

Voltando ao restaurante, eu colocava uma panelona de água no fogo alto e chamava o dono do traiteur quando a água estava fervendo. Só aprendi a fazer o chá depois de quase um ano trabalhando lá, mas não há muito segredo.

Segue o modo de preparo:

1. Coloque cerca de 1,5 L de água para ferver em uma panela

2. Quando a água estiver fervendo loucamente, jogue um maço de hortelã lavado e mexa com uma colher para ele se espalhar

3. Tampe a panela e desligue o fogo. Deixe por 5 min.

4. Mexa novamente com uma colher, coe e coloque em uma térmica

5.  Ao servir as xícaras, coloque umas três folhinhas em cada uma para dar uma graça

6. O açúcar é opcional, mas o ideal é tomar o chá bem docinho, como se faz nos países orientais

Meu momento preferido é quando abro a panela com o chá pronto. O vapor perfumado que sobe refresca a alma.

Durante os três anos que morei em Paris, este chá regou muitas conversas na mesa do traiteur depois do expediente com  amigas que trabalhavam lá – papos existencialistas, discussões sobre o exílio, o processo artístico de cada uma, os livros, as exposições, os amores…

Marina, Hiba, Ana, Renata, Joana, Talita e Odri: beijo imenso!