Apesar dos meus 4 avós japoneses, eu nunca fui tão ligada em marcas de senchá. Tenho arquivados na memória diversos sabores de chá verde: da casa da tia-avó, aqueles servidos depois das missas, da casa da prima, da Sawako (cabeleireira que me presenteou com um senchá japonês delicioso em meu aniversário de 31 anos), do Puri (que durante quase três anos foi meu vizinho e, mais do que o gosto do chá da casa dele, eu me lembro de ele deixar o chá esfriando antes de dormir).

Há mais ou menos um ano, comprei, pela primeira vez, um pacote de senchá n’A Loja do Chá, no Shopping Iguatemi. Não lembro o número dele, apenas sua descrição que deve ser algo como “senchá japonês orgânico” – prometo coletar informações mais precisas da próxima vez que eu passar na loja (lá, você encontra latinhas para armazenamento, como esta que você vê na foto que abre o post). Ele tem um sabor sutil, principalmente se você deixa a infusão por pouco tempo, como eu – nos dias em que estou a fim de tomar um chá beeeem suave, não deixo passar de um minuto.

Para celebrar as últimas folhas, fiz questão de demorar o café da manhã, pegar uma xícara e despejei o chá sem coar no bule para deixar algumas folhas caírem, se abrirem e dançarem ali dentro, fazendo o gosto permanecer por mais tempo.

Então foi-se o belo espetáculo, devidamente fotografado, como vocês podem ver acima e, logo em seguida, veio uma tremenda incrongruência: tomar chá verde em xícara com asa! Pode parecer um pouco de frescura – até porque, quando não estou em casa, eu tomo chá verde em xícara com asa t.r.a.n.q.u.i.l.a.m.e.n.t.e -, mas não posso negar que meu cérebro não processa direito essa história de encaixar os dedos para tomar chá verde. Talvez seja uma nostalgia um pouco exagerada, pois de pequena eu não tomava chá verde em xícaras ocidentais.

Gosto mesmo é de abraçar a porcelana com as mãos e sentir o calor da bebida tocando os dedos.

Apesar de ter ficado um pouco triste de o chá ter acabado, não vejo a hora de sair caçando uma nova marca de senchá. E aí, alguém tem alguma sugestão?

* TEMPERATURA DA ÁGUA: de 90 °C  * MEDIDA: 1 colher de chá por xícara * TEMPO DE INFUSÃO: um pouco mais de 1 minuto *

Passagem rápida pelo blog só para contar que o Cerimônia do Chá foi convidado para testar uma marca importada que corre o sério risco de ser comercializada em São Paulo (sem previsão de data). Recebi amostras em saquinho de 5 variedades de chá verde aromatizado, misturas interessantes que estão sendo degustadas aos poucos. Aproveitei para estrear uma das xícaras japonesas que vieram no carregamento da última visita à casa dos meus pais (as peças mais “valiosas”, como um bulinho simples que era da minha baachan ou presentes de casamento da minha mãe ainda não são dignas do meu armário).

Passear pela vizinhança é bom. Principalmente quando a vizinhança é amiga. Entrar em uma loja, compartilhar descobertas e criações, conhecer lugares novos, pessoas novas, percorrer prateleiras de uma livraria que faz tão parte da minha história, onde me perco, me encontro e me deparo com pedaços de outros passeios que aconteceram anos atrás.

Ao abrir um livro fui, por alguns instantes, transportada a Berlim, cidade onde passei uns 4 dias com o Puri fazendo coisas banais. Ainda trago na pele a sensação dos ar preenchendo completamente meus pulmões em caminhadas por avenidas amplas e passar longos períodos deitada na calçada de um café que não existe mais e em cujo banheiro havia um exemplar em inglês do Tao Te King. Poderia reconhecer o cheiro das máquinas de escrever nos brechós, dos tipos em metal expostos em uma barraca no mercado das pulgas e sentir novamente meus olhos lacrimejarem no Museu Bauhaus, onde andei por corredores do passado e do futuro.

E assim meus olhos ficaram ontem ao abrir um livro e me deparar com o bule mais lindo do mundo (que faz parte do jogo de chá mais lindo do mundo). Os nomes oficiais são Tac Tea Pot e Tac Tea Service, respectivamente, criados por Walter Gropius, arquiteto e fundador da escola Bauhaus, para o Rosenthal Studio em 1969.

Alguns acham esta estética fria, simétrica ou até técnica demais (função, forma, cor, material e processo produtivo são elementos importantes na elaboração do design). Simples e harmônico, acho que Bauhaus é um reflexo de um pensamento de Gropius, que via o design como parte integral da vida. Outro ponto interessante a comentar aqui: a influência do design japonês.

Eu me entrego a Bauhaus. É uma escola que me toca profundamente. Em algumas peças, eu sinto que a ausência de referências ou de coisas, esse vazio, me permitisse preencher tudo isso com minhas memórias sensoriais. Nada de retratos de família pendurados na parede contando uma história. Posso construir a memória de maneira mais sutil, praticamente invisível, intocável.

E ainda nem cheguei no aspecto “conforto”. Eu acho que ele vai além da proposta de “praticidade”. Basta olhar para a alça da xícara da foto acima ou para a tampa do bule na primeira foto do post. Como seus dedos se encaixariam ou segurariam os utensílios? A minha resposta seria: “de maneira confortável”. E isso é uma característica dos bules Bauhaus: “interessantes e agradáveis de segurar”, sem falar de outras vantagens, como conservar a temperatura e evitar que a bebida escorra pelo bico ao terminar de servir uma xícara.

Todos esses princípios já estavam lá no jogo de chá assinado por Whilhem Wagenfeld (que foi aluno e depois professor da Bauhaus) em 1931. O famoso bule de vidro, criado então para Jenaer Glaswerk Schott & Gen, é sonho de consumo atemporal.

Eu ainda fico com o modelo de Gropius. E você?